sábado, 1 de outubro de 2011

De ignorante para ignorante

                                           


             Eu conheci um homem cruelmente ignorante que vivia falando, falava demais para um homem tão surdo que mal podia escutar o que dizia, se era mesmo o que queria. Palavras demais e coerência de menos. Falava sozinho á porta do Café, talvez estivesse dias sem salivar um prato ou talvez tivesse comido tanto que por isso vomitava aquelas asneiras.
             Aquele homem dizia alguma coisa sobre o Pai-Nosso, mas não estava a orar, era uma espécie de análise do tal texto. Porém de tanto falar ele compreendeu o que queria dizer, então em um súbito ato de sobriedade disse, "O homem ao rezar o Pai-Nosso cava seu próprio poço... o problema não é quando ele deseja ter o pão a cada dia, nem quando ele deseja que a vontade do Altíssimo esteja em toda a superfície tal como em Seu Reino... ", deu uma pausa como que se certificando que eu estivesse atenta, e estava. E prosseguiu, " A sua desgraça é quando ele deseja cegamente, precariamente e baixo como é, que seja ele perdoado igualmente ás vezes que ele perdoa quem o tem ofendido."
              Eu deveria ter pedido uma água, talvez desse grosso modo teriam, aquelas palavras, descido pelo corpo e alma de maneira menos desastrosa. De uma intolerante julgadora passei a verdadeira ignorante e o tal homem de ignorante passou a me incomodar com suas drásticas verdades.

domingo, 17 de julho de 2011

Ligeiramente, me permitindo

                                                   

                Agora sinto, sinto uma estranha agonia entre uma respiração e outra. E vejo o quanto demorei pra olhar para o que realmente deveria ser visto, viver o que realmente mostrava-se necessário ser acompanhado. 
            Sim acabou, e ligeiramente me permito olhar pra trás e dizer adeus... Oh meu Senhor o que é um adeus?
            Será ele esse estranho líquido que amarga ao interromper minha boca, ou isso são lágrimas? São elas imagem refletida inversamente transmitidas de um ciclo de dentro para fora deglutidas de momentos que não sei narrar? Ou serão apenas elas? Eu não sou apenas eu, hoje sou muito pior! Canto músicas que não sei falar, vejo imagens que não sei interpretar, e ainda acho-as inspiradoras. Vou á lugares que não sei onde ficam, converso com pessoas que não sou capaz de dizer a cor de seus olhos. 
            E nesse momento? Nesse momento estou em meio a fumaça viciante e pesada de um bar, e o pior... eu a faço, a faço com um cigarro que me deram de troco na semana passada. Sou eu, o cigarro e um vasinho com uma flor de plástico em cima da mesa que insiste em me encarar, mas não estou tão excitada á me apaixonar... não hoje. As pessoas conversam, riem, me parece tão normal... me parece tão normal esses dementes ignorarem, no palco, o jovem que canta uma música que fala de algo que está 'tão longe'... me parece tão normal ter esse leve pressentimento de que ele canta pra mim, de que ele olha em meus olhos e escarra todas essas rimas, todas essas verdades, as quais você não teve coragem de dizer, eu sei. 
          Nessa noite excessivamente crua, na qual a lua deita sobre as nuvens, eu também experimentei negar o ar da minha graça... no celular ligações dos amigos, da mãe, até sua, mas eu não... irei ficar por aqui escorada na cadeira de madeira, inalando pecado e conversando com o menino da voz rasgada e rimas fáceis. Pois já sou tão amarga, que por honra me faço Lima.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Sou apenas Eu

     
             Sou apenas eu , pode olhar! Não há truques nem disfarces; estou totalmente desarmada, sem planos nem teses. Você me conhece, então não duvide.
          Sou apenas eu, tirei a máscara e desfiz as mentiras.
          Sou apenas eu, não fique com medo, não se acanhe e nem se sinta constrangido com tamanha franqueza; franqueza a qual já deveria ter usado há muito tempo.
          O porque de tudo isso? Não sei... talvez seja por mim, talvez por você, mas com certeza por nós.
          Sem frases de efeito, sem sorrisos programados, sem respostas prontas para as suas perguntas que eu já decorei. Nada! Nada além de mim.
          Não diga-me que tanto faz...tanto faz se eu for sincera ou não, porque eu sei o que você quer. A verdade é o que buscamos, mas não o que queremos, não é?!
          Sabe, andei pensando muito em não pensar tanto em o que dizer, em o que fazer, em o que buscar e sim, não consegui.
          E...e é... é engraçado como eu já sei o que você vai me dizer, como vai agir, como vai me olhar... porque é exatamente como sempre foi. Então, não sei se devo ou preciso fazer essa cena, que querendo ou não já foi ensaiada dezenas de vezes em frente do espelho, pois sendo ou não, o que está para acontecer nós já sabemos como e que sim. É como se nós adiássemos a felicidade para quando quisermos, como se a guardássemos no bolsos da calça e que sempre estivesse ao nosso alcance. E isso foi aceito por ambos sem nenhuma palavra, porque eu sei que o beijo dessa boca é meu.
          Por isso, quando eu estiver na sua frente, não se acanhe ou se sinta constrangido por estar tudo em nossas mãos. Não ache que está bom demais pra ser verdade, porque não está; quando a esmola é muita o santo não desconfia, ele agradece.
          Porém não agradeça, não se trata de um favor, nem de um acaso. Se trata da nossa última chance.
         

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Não tão longe do Inferno

                                             

           Não tão longe do Inferno e é equivocado dizer que lá é quente.  É frio, tanto que mal me sinto... e como sinto muito por mim.
          Lá é solitário, por isso frio. É necessário calor humano, mas não há preocupação, nem tão  humanos, então se sente frio.
          Estou de braços cruzados, escorada no que se chama Portal do Inferno, lágrimas se gelam empedrando em minha face. Daqui vejo almas em auto-flagelo, umas agonizando e outras se deliciando no prazer da dor, da sua dor. E nem sei se estou entrando ou saindo, só sei que se há pressa. Há pressa para se sofrer, há pressa de sangue.
         Espera, o que são aquelas pessoas rindo? Me parecem alegres, ou são felizes? Talvez se encontrem na mesma situação que a minha: Sorriem chorando. Ou talvez sejam um casal.
        Será danoso á mim entrar de uma vez ou acabará sendo uma forma de fugir de tudo, assim como o casal? Olhando para trás, percebo que o inferno é lá. Lá é quente, lá é perturbador, lá é onde tu moras. Entre meio tudo, procuro motivos para voltar, mas entre eles só me deparo contigo, e nem em pensamentos consigo te encarar. Seus olhos, os meus lagrimejam. Sua insignificância é significante por demais á mim.
       Estou tentando me afastar, e isso por si só já se faz inferno.

sábado, 25 de junho de 2011

(Yiruma) River Flows in You

Mais parecia uma manhã de domingo

                                             

           Hoje. Sempre hoje. Hoje lhe tive.
           Antes me direcionei toda aos céus e reverenciei a lua e como se ela fosse Deus rezei e pedi, pedir é o que move o mundo, então não me ridicularizo por isso, aliás, quem nunca rezou olhando para as alturas imaginando estar mais próximo do Altíssimo, o Senhor? E me enchi de esperanças, pensei: " em uma manhã onde sol e lua dividem o mesmo céu, seria impossível algo dar errado. Estava certa.
            Ali diante ti éramos apenas eu e meu orgulho, daí a pouco fui apenas eu, pois sei que meu orgulho nunca  me apoiou em nada que desse certo. Então não erraria novamente.
           Mais parecia uma manhã de domingo, em que levantamos bem cedo, abrimos a janela e deixamos o sol nos queimar a face só pra ter certeza de vida. Uma manhã em que não se há pressa, em que até o vento sopra calmo com uma essência de preguiça. E a manhã é tão magnífica que nem nuvens se arriscaram na ousadia de perturbar. Nas manhãs de domingo eu costumava ir á Igreja, hoje não mais, não direi porque, apenas aceitem que não. Mas mesmo tanto tempo depois, senti saudade e então me reverenciei ao seu templo, esse seu corpo que me abriga, sem forçar á ficar, que seduz a contemplação e á serenidade dos atos, digo... orações.
            Seus beijos que até então eram tão beijos, nessa manhã passaram a ser reabastecimento irrevogável e indiscutível de vivificação do ser, do meu ser, digo agora, eu.
            E ríamos incessantemente como se a alegria fosse tão inevitável como a careta de um bebê ao, por primeira vez, deliciar-se em um limão. Tão inevitável e natural que por um momento pensei que aquela alegria era verdadeiramente minha por direito e merecimento, tão natural que rir não me doía como sempre doeu.
             Quem sou eu para falar dos pregos que crucificaram Jesus, mas na minha insignificante existência penso que aqueles pregos foram cravados com a mesma crueldade, força e desonestidade com a qual um dia, se realmente existe, uma fecha me acertara, flecha de cúpido. Flecha de cobre, não de ouro. É tão patético falar de cúpidos e flechas, mas creio realmente que não seriam tão grandiosos e fortes nossos elos, se não fosse tão doloroso e trágico. 
             E sem dúvidas a única intensão é matar. Mas não morro, não antes desse amor. Não mesmo. E se eu morrer antes será morte do coração; razão ? Amei demais.
             Era sangue ou amor, o amor era e sempre será em maiores proporções.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O mais Doce Pecado

                                               


                           E então o amei. Enfurecidamente e tão somente quão ligeiramente o queria não comigo, mas sim por mim.
                         Eu o desejei assim como a luneta deseja a lua, assim como uma boca deseja a outra. Desejei-o esmagadoramente, meu mais doce pecado.
                         Debaixo de uma luz amarela, ouvindo uma música que citava seu codinome, chorei vestida em sua camiseta, a qual, por minha salvação, era impregnada por seu perfume. Chorei de saudades, pois ainda te tendo aqui a saudade já é insuportável.
                        E tive pena, pena de mim. Pena da vida que ainda resta aqui; vida a qual, talvez por uma desesperada esperança tenta me convencer que eu viva melhor sem ti.
                       Morte da alma; pra mim não basta a vida corpórea.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Antes que a abstinência me mate



            Pensei e tentei suportar a ideia de que estaria sã apenas, solitariamente apenas; porém vejo que ser apenas, solitariamente apenas, não é algo que irá curar, não será algo controlável e piedoso.
              Isso me faz crer que piedade não existe. Não há piedade quando se sofre, não há piedade quando se vive, não há piedade quando se morre, não se é piedoso quando se ama, não se é piedoso quando se é humano, não é digno de piedade quando uma madame passa por uma calçada desgastada, se equilibrando em seu salto, enfia a mão na bolsa e joga... e joga, na caneca de alumínio amassado, um vintém. Não há piedade quando se vive sempre com uma lágrima á cair pela face. Entretanto, ver meu amor se distanciando ao tocar outra face, deitando em outros aconchegos e sorrindo em outros sorrisos, me parece muito digno de piedade. A ponto de ser uma piedade mendigada.
                Pensei que seria fácil decidir-me entre viver e sobreviver, e até estava me adaptando á sobreviver, mas quando o vi tentando viver em outra vida, tateando outros cabelos... senti uma inveja mortal. Parecia que nada se decompunha mais ligeiramente que meu podre e duro coração, parecia que não havia mais chão onde pisar, que meu corpo estava a se deteriorar.
                Tive desejo de morte, desejo de carne, a sua carne. Tive medo, medo de não mais ser passível á mim sua felicidade. Te jurei de morte.
               Percebi que a sua alegria era esmagadoramente insuportável. Que não seria de mais ninguém, se não minha. Desculpa por ser tão humana e egoísta, mas não aguento carregar a certeza de que serias feliz sem mim, de que sem mim terias tudo.
               Te preciso. Te vivo. Te respiro, porém não como o ar essencial e sim como a droga tragada viciante.
              De quebra , quero primordialmente e indiscutivelmente que se dane a droga da minha sagacidade e autossuficiência, preciso sanar minha necessidade antes que a abstinência me mate.